O desespero das Berlengas
(Filipa M. Ribeiro)
Foi uma personagem central na vida da Berlenga durante muitos anos. Davam-lhe o nome de Ruço ou Jerusa. Ás vezes era o Ruço II ou Jerusa II. Independentemente das designações era um burro. Para os distraídos era apenas a mascote do Farol da Berlenga, mas para os mais atentos era o companheiro de sacrifício que os faroleiros mais velhos ainda hoje recordam com a inevitável ternura.
«Trabalha-se aqui mais do que o burro da Berlenga» é uma expressão que, de vez em quando ainda se ouve por aquelas bandas, embora poucos tenham de facto visto o dito cujo a carregar as botijas de gás, os bidões de óleo, as ferramentas e toda a espécie de mobília desde o cais até ao cimo da ilha.
Sobre o pobre bicho trabalhador, dizem que era manhoso e adivinho. Nos dias em que o barco partia para Peniche, fugia e escondia-se para que não o encontrassem. Mas como numa ilha tinha pouca saída, que remédio tinha senão o de voltar à labuta, mesmo quando tentava morder quem se aproximasse.
Um dos exemplares de Ruço arranjou outra forma muito original (e subtil) de se vingar dos humanos: roubava cigarros, comia sabão e desfazia a roupa dos estendais. Já um outro enlouqueceu, não se sabe se de excesso de trabalho ou de solidão. Ainda assim, o burro da Berlenga tinha algum reconhecimento oficial. A 3 de Novembro de 1971, o chefe do farol oficiou à Direcção: "Comunica-se que o Burro que está ao serviço do Farol e que efectua os transportes do Cais da Berlenga- Farol, e vice-versa, se encontra doente, mal podendo andar, não suportando as cargas, caindo constantemente (...)Mais se informa que o Burro até ao momento cumpriu cerca de vinte anos de serviço. O preço de um burro novo é de 3000$00".
Alguns dias depois, o burro foi substituído e custou apenas 2100$00 segundo registos do Arquivo da Direcção de Faróis. Este último exemplar continuou a trabalhar para o Farol até 1985, altura em que foi substituído por um mini-tractor que não tem nome.
Fonte: www.editonweb.com
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